Humanização dos Cães

A humanização dos animais domésticos é um assunto que deve ser discutido sobre vários pontos de vista em função da sua complexidade.

Por um lado temos a vontade e a necessidade (maior conscientização e respeito) cada vez maior de cuidar dos animais, especialmente os cães, associado ao fato da espécie humana estar “decepcionada” com seus membros, por uma série de motivos, especialmente pelo sentimento de intolerância que galga nas relações humanas atualmente, mudanças na sociedade, verticalização das cidades, carências emocionais do Homem moderno, somando-se ao fato do “mercado pet” estar ávido para que o processo de humanização seja cada vez mais intenso e profundo em função obviamente de interesses comerciais.

Saímos da escala “oito” e fomos para a “oito mil” na relação Homem x Animal em apenas vinte anos. Foram mudanças muito drásticas e toda vez que saímos de uma situação e vamos para outra completamente oposta, temos altíssima chance de nos perdermos e exagerarmos.

Aniversário CãoE exagero é o que não falta na relação com os animais domésticos atualmente, que vai desde festa de aniversário para cães, casamento animal, motéis específicos e até excessos estéticos, colorir ou descolorir a pelagem e pintura das unhas, por exemplo, tudo regado há muito, mas muito marketing capitalista.

Não podemos nos esquecer também do próprio desenvolvimento profissional que ocorreu na medicina veterinária nos últimos anos, através principalmente da especialização dos médicos veterinários em áreas médicas e diagnósticas tais como: homeopatia, cardiologia, dermatologia, ortopedia, cirurgia, oftalmologia, medicina tradicional chinesa, ultrassonografia, radiologia, comportamento animal, que corroboram para que os animais de alguma forma recebam tratamento especial associado a popularização de procedimentos veterinários, a vacinação, cirurgias, quimioterapia, etc, ou de métodos de diagnósticos como raio-x, ultrassom, eletrocardiograma, entre outros.

Este desenvolvimento profissional ocorreu por inúmeros motivos, especialmente pela pressão da própria sociedade exigindo cada vez mais qualidade e resultado nos atendimentos médicos, o que traz desenvolvimento e capacitação profissional, tecnologias cada vez mais inovadoras e conhecimento, na medida que se estuda mais profundamente cada área, o que é uma consequência muito boa tanto para o Homem como para os animais.

Esta nova consciência em relação aos animais domésticos pode ser muito bem ampliada para uma nova visão do próprio Planeta Terra, na medida que, compreendemos infelizmente da pior forma, que recursos que, imaginávamos eternos, podem se esgotar em pouco tempo, como a própria água ou o comprometimento da qualidade do ar que respiramos.

É uma nova consciência, novamente é uma quebra de paradigma importante e necessário para a nossa própria sobrevivência da espécie humana.

Casamento CãesQuanto às consequências em relação ao exagero no processo de humanização dos animais pelo Homem moderno podem ser, desde animais mimados simplesmente, até sequelas irreversíveis em relação à sua saúde física e emocional.

Com relação à saúde física, temos doenças de caráter crônico e/degenerativas, tais como: alergias, diabetes e até o câncer que ocorrem em função do excesso de alimentação e produtos industrializados, medicamentos, vacinas, excesso de higiene e limpeza. Enfim, uma situação muito parecida com a nossa espécie que sofreu nos últimos anos um fenômeno de transição epidemiológica, ou seja, mudança de caráter das doenças de agudas e curáveis na maioria das vezes virais, bacterianas, parasitárias, para doenças crônicas e incuráveis como alergias, diabetes ou câncer.

No entanto, é com relação à saúde emocional o pior dano causado pelo intenso processo de humanização, em função da destruição completa ou muito próximo disto, dos seus instintos.

Destruindo seus instintos mais primitivos, os animais perdem a sua identidade passam a se identificar com os seus tutores e a partir daí podemos nos preparar para ver os animais desenvolverem toda a sorte de sintomas e doenças “completamente” e “exclusivamente” humanas, tais como: angústia, ansiedade, depressão, irritabilidade, compulsões, transtornos obsessivos etc.

A humanização de uma forma simples e objetiva é um fenômeno causado por carências que são peculiares do homem moderno. O ser humano, que decide pela companhia do animal em detrimento à do próprio homem o faz na verdade, por uma garantia de lealdade e integridade no relacionamento, que considera aspectos difíceis de conseguir nas relações entre pessoas no mundo de hoje. É uma decisão por não sofrer: críticas, traições, questionamentos, abandonos, decepções.

Vivemos numa sociedade em que é proibido sentir (sofrer) qualquer sentimento ou emoção por menor ou mais insignificante que seja!

Se estamos ansiosos, há medicamentos para ansiedade, se estamos tristes, também temos medicamentos para tristezas aos baldes, adquiridos facilmente em drogarias que têm carrinhos como de supermercados caso não consigamos carregar nas mãos a grande quantidade de analgésicos emocionais para suprimir aqueles sentimentos que insistem em brotar, necessários na maioria das vezes, para o nosso próprio amadurecimento e evolução.

Talvez por estas e outras razões, vivenciamos um momento da humanidade onde a tônica é a carência de inteligência emocional, pois o nosso sentir está atrofiado em detrimento ao pensar cada vez mais valorizado.

É neste contexto de completo desequilíbrio entre sentimento e razão, no vazio que é exclusivamente nosso, que os animais se encaixam e se tornam mais importantes do que o são, não que não o sejam.

Vivemos um momento onde ocorre quase uma sacralização do animal, uma mistificação de seus sentimentos, não que ele não tenha o seu valor ou a sua sabedoria, mas saímos de uma visão antropocêntrica e fomos para um completo oposto, necessário creio eu num primeiro momento e que tenderá a um equilíbrio futuro.

Dr. Marcos Fernandes
CRMV-SP 7287

Veterinário homeopata, psicanalista e mestre em saúde pública pela USP (SP). Comunicador da Rádio Mundial (95,7 FM) no programa Saúde Animal. Autor do livro “Cara de Um, Focinho do Outro” da Editora Butterfly

Gostou desse artigo? Compartilhe com suas amigas e passe a informação adiante.
E deixe também o seu comentário!

Até a próxima